“O Ventre Construído” fala muito sobre lugares geográficos e emocionais. Morada, lar, espaço, ventre. De que maneira o estar em diferentes espaços afeta as personagens (e a nós), bem como, de que maneira as condições materiais, sociais e econômicas determinam em quais ambientes uma pessoa vai circular e como vai circular em outros. Alguns lugares repelem e outros acolhem. Alguns lugares assustam, outros convidam.
Dentre os ambientes internos e externos descritos no livro, um que se faz presente é o cortiço, em especial os cortiços de São Paulo (SP). A ficção não busca generalizar, mas apontar alguns aspectos comuns a esse modo de habitação, como a privacidade. Compartilhar seu lugar com pessoas desconhecidas, alternando o uso do banheiro, do quintal, do tanque e do varal, são alguns desafios enfrentados. O valor do aluguel bem abaixo do que se paga em uma casa individual, por exemplo, geralmente legitima a precariedade das edificações, que carecem de manutenções básicas por parte dos locadores.
No livro, o ponto de vista infantil e adulto na interação com esse ambiente é explorado. Ao mesmo tempo que se torna um lugar de socialização e do brincar, a ausência de privacidade e a rotatividade de pessoas escancara a vulnerabilidade a qual são expostas.
Amanda Materz Fialho
Arte: Manuela Navas



